Da primeira corrida em Valongo do Vouga ao maior palco mundial das provas de estrada. Mónica Lopes Silva é uma das três mulheres escolhidas para representar Portugal na meia-maratona dos Campeonatos do Mundo de Estrada, que se disputam este fim de semana em Copenhaga. Aos 42 anos, depois de uma carreira com mais de três décadas, títulos nacionais, internacionalizações, uma maternidade e um regresso ao mais alto nível, a aguedense escreve mais um capítulo de uma história desportiva singular.
Há histórias que não se explicam apenas pelos cronómetros. A de Mónica Lopes Silva começou em Valongo do Vouga, no concelho de Águeda, muito antes de Copenhaga, dos grandes campeonatos ou das internacionalizações.
Agora, aos 42 anos, a atleta aguedense prepara-se para voltar a colocar o nome de Portugal no peito. E desta vez fá-lo num Campeonato do Mundo.
A Federação Portuguesa de Atletismo confirmou Mónica Silva entre os seis atletas que vão efetivamente competir nos Campeonatos do Mundo de Estrada, que decorrem nos dias 19 e 20 de setembro, em Copenhaga, na Dinamarca. Na meia-maratona feminina, Portugal será representado por Mónica Lopes Silva, Salomé Rocha e Susana Godinho Santos. No setor masculino estarão Miguel Borges, Rui Pinto e Samuel Barata.
Para Águeda, há um dado que torna esta participação particularmente especial: uma das três portuguesas que vão enfrentar a elite mundial nasceu no concelho e deu precisamente aqui os primeiros passos no atletismo.
Tudo começou em Valongo do Vouga
Mónica nasceu a 25 de novembro de 1983, em Águeda, e as suas raízes desportivas estão profundamente ligadas a Valongo do Vouga. A própria atleta contou que começou a correr ainda criança, treinando inicialmente na Casa do Povo de Valongo do Vouga. Uma primeira participação, ainda muito jovem, terminou com um terceiro lugar e um troféu. O que começou quase sem grandes ambições acabaria por transformar-se numa carreira de dimensão nacional e internacional.
Aos 15 anos surgiram oportunidades para dar um passo em frente. Mónica recordou posteriormente ter recebido uma proposta do Boavista e outra da ADECOS, em Águeda, tendo sido esta última experiência importante para encarar a modalidade de forma mais séria.
A partir daí, os quilómetros começaram a transformar-se em resultados.
Mónica foi campeã nacional sub-23 de estrada, campeã nacional sub-23 de 1500 metros em pista coberta e de corta-mato curto, além de vice-campeã nacional sub-23 de corta-mato longo. Já entre as seniores, conquistou também o título nacional dos 3000 metros em pista coberta e somou títulos coletivos em estrada e corta-mato. (Revista Atletismo)
Mas houve um momento que ficou particularmente marcado na história do desporto aguedense.
Macau 2006: ouro à frente de Fernanda Ribeiro
Em outubro de 2006, com apenas 22 anos, Mónica Silva representou Portugal nos primeiros Jogos da Lusofonia, em Macau.
Na meia-maratona, a jovem atleta de Valongo do Vouga protagonizou uma das páginas mais marcantes da sua carreira: venceu a prova e conquistou a medalha de ouro, terminando à frente de Fernanda Ribeiro.
Segundo os registos da época, Mónica cumpriu a distância em 1h22m34s, deixando a campeã olímpica portuguesa a 2m23s. A medalha de ouro foi-lhe entregue por outra figura histórica do atletismo português: Rosa Mota.
Vinte anos depois, Mónica continua a competir internacionalmente por Portugal.
E isso ajuda a perceber a dimensão daquilo que acontecerá este domingo em Copenhaga.
Uma carreira que também passou pela maratona
A aguedense não se limitou às distâncias mais curtas.
Em 2013 estreou-se na maratona em Turim e terminou na segunda posição, com 2h41m43s. Dois anos depois, em Hamburgo, alcançou uma das melhores prestações da carreira na distância, terminando entre as primeiras classificadas da prova.
A World Athletics regista atualmente como marca oficial de referência de Mónica na maratona 2h34m02s, obtidos em Hamburgo, em abril de 2015.
O currículo internacional da atleta inclui ainda marcas expressivas noutras distâncias: 33m05s nos 10 quilómetros de estrada, 33m32,55s nos 10.000 metros em pista e 51m52s nos 15 quilómetros de estrada, segundo os dados oficiais da World Athletics.
Mas talvez o número que melhor ajuda a compreender o nível a que Mónica ainda compete tenha sido conseguido muito recentemente.
Aos 40 anos correu a meia-maratona em 1h11m37s
Em 27 de outubro de 2024, em Valência, Mónica Silva correu os 21,0975 quilómetros da meia-maratona em 1h11m37s.
É a melhor marca pessoal que consta atualmente do perfil oficial da atleta na World Athletics.
Mónica tinha então 40 anos.
O resultado colocou-a nesse ano entre as atletas europeias com registos relevantes na distância: a listagem oficial da World Athletics para 2024 coloca o seu 1h11m37s na 69.ª posição europeia da temporada, em igualdade de marca com a espanhola Lidia Campo.
E a atleta continuou a ganhar.
Em 2024 venceu, por exemplo, a Meia-Maratona Cidade de Ovar, terminando em 1h13m40s.
Já em março de 2025, Mónica foi vice-campeã nacional de meia-maratona, terminando a prova em Lisboa em 1h14m07s, apenas atrás de Susana Godinho.
É precisamente Susana Godinho quem estará agora ao seu lado com a camisola portuguesa em Copenhaga.
A maternidade e um regresso às vitórias
Existe ainda outra dimensão na carreira de Mónica Silva.
A atleta interrompeu parte da atividade competitiva devido à maternidade. Quando regressou, voltou também às vitórias.
No final de 2022 venceu a São Silvestre do Porto. Depois da corrida explicou à Lusa que tinha falhado a edição anterior por ter sido mãe e que regressar e conseguir novamente vencer tinha um significado especial.
Não se tratou de um regresso meramente simbólico.
Mónica voltou a ser competitiva ao mais alto nível nacional, melhorou a marca pessoal da meia-maratona já depois dos 40 anos e acabou por regressar à Seleção Nacional.
Atualmente representa o Clube Atlético de Macedo de Cavaleiros, emblema que defende há mais de dois anos.
E em 2026 continuou a somar triunfos. Em junho venceu novamente a Meia-Maratona D’Ouro Run Gondomar, repetindo a vitória do ano anterior, e poucos dias depois ganhou também a Corrida de São Pedro, em Macedo de Cavaleiros.
É, portanto, uma atleta de 42 anos que chega ao Mundial não apenas sustentada pelo currículo passado, mas mantendo atividade competitiva e resultados no presente.
Copenhaga: agora é o Mundo
A dimensão da competição que Mónica encontrará na Dinamarca é muito diferente da de uma corrida convencional.
Copenhaga recebe apenas a segunda edição dos Campeonatos do Mundo de Estrada, depois da estreia do formato em Riga, na Letónia, em 2023.
A organização prepara um evento de enorme dimensão, com cerca de 65 mil participantes nas provas abertas ao público, número apontado como recorde para um evento desportivo realizado em território dinamarquês. O percurso da meia-maratona atravessará o centro histórico e zonas ribeirinhas de Copenhaga, terminando nas proximidades do Parken.
A prova feminina da meia-maratona está marcada para domingo, 20 de setembro, às 8h10 de Portugal continental.
É nessa linha de partida que estará Mónica Lopes Silva.
Não numa competição de veteranos ou numa prova reservada ao seu escalão etário.
Mónica integra a Seleção Nacional absoluta e competirá na prova feminina do Campeonato do Mundo de Estrada.
Portugal apresenta três atletas: Mónica Silva, Salomé Rocha e Susana Godinho Santos. Susana chega a Copenhaga com a melhor marca da temporada entre as três, 1h11m34s.
“Só tenho que estar orgulhosa”
Quando soube que tinha sido convocada, Mónica admitiu que não esperava a chamada.
À Rádio Onda Livre, a atleta aguedense explicou que a convocatória representava o reconhecimento de todo o trabalho realizado e fez questão de incluir nesse percurso o clube, a família, patrocinadores, treinador e grupo de treino.
“Só tenho que estar orgulhosa de mim”, afirmou ao falar da oportunidade de voltar a representar a Seleção Nacional num Campeonato do Mundo.
Talvez essa seja a melhor forma de enquadrar o que acontecerá domingo.
Porque os números contam uma parte da história: 42 anos, mais de três décadas ligadas ao atletismo, títulos nacionais, internacionalizações, uma medalha de ouro nos Jogos da Lusofonia, 2h34m02s na maratona, 33m05s nos 10 quilómetros e 1h11m37s na meia-maratona.
Mas existe outra parte que nenhum cronómetro consegue medir.
A menina que começou a correr em Valongo do Vouga, que subiu ao pódio na primeira prova, que recebeu em Macau uma medalha de ouro das mãos de Rosa Mota, que atravessou diferentes fases da carreira, foi mãe, regressou, voltou a ganhar e aos 40 anos ainda conseguiu estabelecer um recorde pessoal na meia-maratona, vai agora, aos 42 anos, colocar-se numa linha de partida de um Campeonato do Mundo.
No domingo de manhã, em Copenhaga, no meio de algumas das melhores corredoras de estrada do planeta, haverá uma camisola portuguesa vestida por uma atleta de Águeda.
O nome é Mónica Lopes Silva.
E a estrada que a levou ao Mundial começou em Valongo do Vouga.

